Faleceu Dagoberto Markl
Actualizado em Quinta, 08 Abril 2010 17:21
O passado domingo de Páscoa deixou mais pobre o Grupo de Xadrez Alekhine: faleceu Dagoberto Markl, aos 70 anos (1939-2010).
Aqueles que conviveram com Dagoberto Markl tiveram o privilégio de conhecer um ser humano encantador, amante da vida e dos prazeres terrenos, cultivando a arte da coloquialidade e partilhando, com simplicidade, o seu enorme saber e cultura.
Na sua multifacetada existência encontramos, a par do historiador, o museólogo, o xadrezista, o escritor, o jornalista, o conferencista, o dirigente associativo e o cidadão politicamente empenhado.
Dagoberto Markl trabalhou desde o início dos anos 70 no Museu Nacional de Arte Antiga, onde foi um interlocutor essencial para aqueles que necessitaram do seu conselho e ajuda como aconteceu a muitos estudantes universitários. Foi membro e vogal da Academia Nacional de Belas-Artes. Como historiador de arte foi um profissional exigente e rigoroso, preferindo a dúvida às certezas, a ele se devem importantes trabalhos da historiografia portuguesa, de entre os quais se destacam o 6º volume História da Arte em Portugal (Publicações Alfa, 1986), com Fernando António Baptista Pereira, a publicação de estudos sobre Nuno Gonçalves e os painéis de São Vicente, como O Retábulo de São Vicente da Sé de Lisboa (Editorial Caminho, 1988) e O Essencial Sobre Nuno Gonçalves (INCM, 1987) e o Estudo Introdutório ao Livro de Horas de D. Manuel I (INCM, 1984), pelo qual foi agraciado com o Prémio José de Figueiredo da Academia Nacional de Belas-Artes. Como historiador do xadrez assinale-se, entre outras, as obras Xeque-Mate no Estoril (Campo das Letras, 2001), sobre a morte em Portugal do campeão mundial Alexandre Alekhine, e O Tratado Jogo de Xedrez da Biblioteca Pública de Évora, um Contributo Para a História do Xadrez em Portugal (separata da revista Callipole, 2004).
A par da actividade profissional de Dagoberto Markl, o xadrez foi a outra paixão da sua vida, dele colhendo uma intensa fruição intelectual e estética. Como praticante do xadrez enquanto modalidade desportiva fê-lo tanto no tabuleiro como por correspondência, modalidade de que foi particular entusiasta e na qual que foi Campeão Nacional de Clubes pelo Grupo de Xadrez Alekhine, tendo sido director da Comissão Nacional de Xadrez por Correspondência entre 1994 e 2001. Dagoberto Markl foi o impulsionador em Portugal do Dia Mundial do Xadrez, o criador da Comissão de História da Federação Portuguesa de Xadrez (de cujos corpos gerentes fez parte) e um conferencista e jornalista de xadrez, tendo sido membro do Conselho de Redacção da Revista Portuguesa de Xadrez, onde publicou diversos artigos sobre a história do xadrez e a relação deste com a arte, e assumindo a direcção da revista de xadrez Peão Distante (Campo das Letras). Ao longo dos anos reuniu em sua casa uma das mais ricas bibliotecas de livros de xadrez de Portugal, bem como uma colecção verdadeiramente notável e internacionalmente reconhecida de tabuleiros, peças e outros materiais de xadrez, tendo sido membro fundador da A.I.C.M.A. – Associación Ibérica de Coleccionistas de Motivos de Ajedrez. Também a problemística do xadrez não foi domínio estranho a Dagoberto Markl, que foi um dos animadores da tertúlia e círculo de estudos «Damião de Odemira» e do seu boletim, com o mesmo nome.
Como cidadão, Dagoberto Markl permaneceu ao longo da sua vida um comunista convicto, exercendo a prática política no seu sentido mais nobre e desinteressado, com uma tolerância que espelhava as suas profundas convicções democráticas.
Com a morte de Dagoberto Markl o Grupo de Xadrez Alekhine perde um dos seus sócios mais antigos e ilustres, exercendo à data da sua morte as funções de Presidente da Mesa da Assembleia-Geral nos actuais Corpos Gerentes do Clube. Dagoberto Markl participou activamente na reanimação do seu clube de sempre, conduzida a partir de 1998, tendo sido o director da exposição «Alekhine – nome de clube» – sobre a presença em Portugal de Alexandre Alekhine e a sua influência no nascimento do clube que assumiu o seu nome –, efectuada em 1999, no âmbito do Festival de Xadrez dos Jogos de Lisboa, unanimemente considerada uma das mais notáveis realizações em torno da história do xadrez em Portugal.
À família, antes do mais à sua companheira, Alexandra Gomes Markl, e aos filhos Ana Markl e Nuno Markl, o Grupo de Xadrez Alekhine apresenta as mais sentidas condolências, afirmando a intenção de perpetuar para os vindouros a memória de Dagoberto Markl.
Àqueles que se queiram despedir deste nosso amigo e sócio, o Grupo de Xadrez Alekhine informa que o seu corpo será velado hoje, a partir das 17 horas, no Centro Funerário Santa Joana a Princesa na Rua Lagares de El-Rei, junto à Av. Estados Unidos da América, em Lisboa. O seu funeral realiza-se no dia seguinte, pelas 15,30 horas, para o cemitério do Alto de São João.
Lisboa, 5 de Abril de 2010
A Direcção do Grupo de Xadrez Alekhine

